Índios mato-grossenses visitam o mar pela primeira vez em Santos

A cerca de 600 km da aldeia, eles pegaram um avião na capital Cuiabá. O destino foi o aeroporto de São Paulo, de onde partiram para o seminário no bairro do Butantã. Do Butantã, seguiram para a pequena praia do Sangava.

Em 21/07/2018 08:16:00 na sessão Entretenimento

Foto: Paula Paiva Paulo/G1

Dois indígenas do povo Myky tiveram uma experiência nova na última semana. Acostumados à água doce do Rio Papagaio, na região noroeste de Mato Grosso, eles embarcaram em uma aventura e conheceram a água salgada do mar de Santos, litoral de São Paulo. Iamaxi, de 47 anos, e seu filho Typju, de 21, se encantaram com as ondas, mas se assustaram com a poluição marítima.
 
A visita foi feita após a participação dos dois em um seminário na Universidade de São Paulo (USP) que debateu as várias modalidades de fala entre os indígenas. Acadêmicos e a outros indígenas Iamaxi apresentaram um tipo de fala cerimonial que os Myky usam quando se encontram com parentes de outra aldeia. A reportagem com a visita dos índios foi veiculada no Olha que Legal, do portal G1.
 
A cerca de 600 km da aldeia, eles pegaram um avião na capital Cuiabá. O destino foi o aeroporto de São Paulo, de onde partiram para o seminário no bairro do Butantã. Do Butantã, seguiram para a pequena praia do Sangava.
 
Acostumados a lidar com barcos a motor, no sinuoso Rio Papagaio, os Mykys foram surpreendidos pelo convite de atravessar o canal do porto de Santos a bordo de uma canoa havaiana, modalidade que se popularizou no litoral brasileiro nos últimos anos.
 
Em vez de tubarões e baleias, a canoa cruzou o canal na companhia de navios cargueiros, com contêineres vindos de toda parte do mundo, além de motos aquáticas e pranchas de stand up paddle. Algumas tartarugas marinhas e garças chegaram a se aproximar da embarcação.
 
Após a travessia saindo de Santos, o grupo parou em uma pequena praia do Guarujá cercada pela mata, a praia do Sangava. Após hesitar bastante, Typju tomou coragem e mergulhou no mar pela primeira vez. "Achei meio diferente, eu achei muito salgado, assim, meio grudento", resumiu o jovem.
 
Enquanto isso, o pai, Iamaxi, observava impressionado a força das ondas. Achou o fenômeno interessante e o comparou com o movimento de um coração. "As águas vão e voltam, nunca correm só numa direção [como num rio]. Ele é como o sangue do nosso corpo, que pulsa sem parar. Por isso o mar deve ter um coração também, que nem a gente".
 
O povo Myky acredita que os elementos da natureza - montanhas, pedras e o próprio mar - têm um "dono espiritual". E, assim como os homens, esses "donos espirituais" podem morrer se não forem cuidados. "Tem que cuidar mais, né, senão acaba. E acaba morrendo tudo, as árvores que aí estão, os animais", disse ele.
 
Por isso, pai e filho se espantaram com a poluição que viram no mar de Santos. O óleo dos navios derramado na água e pedaços de plásticos boiando aumentavam a sensação de estranhamento dos dois. "Lá na minha aldeia quase não tem tanta poluição assim, de meio ambiente, com fumaça, essas coisas", disse Typju.
 
O convite ao passeio foi feito pelo antropólogo André Lopes, de 35 anos, que há 10 frequenta o povo Myky. Santista, André aproveitou a vinda para o seminário para levá-los à praia e para conhecer sua família. "Sempre que posso trago alguém de lá para conhecer a minha aldeia", brinca.
 
 Povo Myky

Os Myky tradicionalmente  habitam as áreas de cabeceiras dos rios pertencentes às sub-bacias do Sangue, Membeca, Juruena e Papagaio, formadores do rio Tajapós, em Mato Grosso. Mantiveram-se em rotas de fuga permanente no interior das suas terras de ocupação tradicional, receosos e arredios ao contato durante quase todo o século XX. 

Em um efeito dominó, a disputa por espaços, terras e recursos naturais deflagrou a intensificação dos conflitos interétnicos. Mortandade, fugas e dispersões passam a descrever a realidade do cotidiano vivenciado pelos Myky por quase duas décadas (dos anos 40 aos anos 60).

Relatam sequestros e ataques, além dos óbitos resultantes de febres e doenças até então desconhecidas: sarampo, gripe e varíola. Estima-se que os Myky tenham sido reduzidos a apenas nove pessoas no final da década de 50. 

Hoje os Myky vivem juntos numa única aldeia e mantêm cultivos tradicionais em grandes roças comunitárias e familiares. São também extrativistas, caçam e pescam. Os cerimoniais estão associados à distribuição e consumo de alimentos, além de ritos de passagem, como iniciação masculina e feminina, casamento, nascimento e morte.


Fonte: Olhar Direto



Por Olhar Cidade 21/07/2018 08:16:00

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