No encontro dos rios, lontras brilhantes se reinventam e lamentam a falta de peixes

Para quem ama a natureza, viver na cidade grande, às vezes é um convite para a tristeza. Há quem volte, refaça a vida e comece a escrever outra história.

Em 24/09/2019 10:24:00 na sessão Estado

Tem quem parta da comunidade, mas guarde a saudade - ao recordar da fartura que já foi, um dia, viver perto do rio Cuiabá e com abundância. Para quem ama a natureza, viver na cidade grande, às vezes é um convite para a tristeza. Há quem volte, refaça a vida e comece a escrever outra história. É o caso Jussara de Moraes Carvalho, que entre idas e voltas, aos 29 anos, - após terminar um casamento - retorna às suas origens. Ela é mais um personagem do Expedição 300 - o Rio das Lontras Brilhantes.

O trabalho na comunidade Sela Dourada é escasso, ali não há tanta opção. Quem quiser voltar para casa tem que ser criativo. Se não for da pesca, precisa aprender a fazer algo que dê sustento. O rio tem pouco peixe, mas ainda pode ser apreciado e naquelas redondezas é mesmo bonito de se ver o espetáculo das águas ainda bem "clarinhas" e o céu colorido - em algum mirante onde o Cuiabazinho se encontra com o Rio Manso, que é onde nasce o Rio Cuiabá.

Jussara serve almoço e janta para quem passa pela comunidade. Oferece trilha e quem quiser pode até dar milho às galinhas - coisa que para muito mato-grossense é comum, mas diferente para quem vive distante da realidade caipira.

Águas se misturam em determinado ponto do rio, assim como as lembranças dos ribeirinhos que vivem na comunidade que fica próxima a cidade de Nobres

Ela é a terceira geração de sua família e, junto aos irmãos, herdou o sitio do avô. Há seis meses de volta às terras que cresceu um dia, enquanto ainda menina, cheia de sonhos e amor pela vida simples. De tanto amor e memória bonita, resolveu compartilhar com quem é que chegue pelas bandas, sua realidade. Fez disso sua renda, uma imersão para os turistas em um "novo" mundo. Para Jussara, esse é o jeito de manter viva a memória de sua vida.

Um pescador garimpeiro

Na mesma comunidade, não muito distante de Jussara, - todos os dias, às 5h30 da manhã, seo Aurentino cata o anzol, linha, isca e vai para a beira do rio. Desde muito cedo, gosta de pescar, mas foi quase aos 30 anos que se tornou pescador profissional. Hoje, aposentado, continua a mesma rotina - por amor ou terapia, não sabe fazer outra coisa. Quem sabe, até saiba, mas da pescaria não abre mão.

Seo Ari é um apaixonado pelo rio e se lembra de momentos de fartura, hoje quando encontra um peixe é como encontrar uma jóia, já que eles estão raros

São outros tempos, o rio mudou, assim como suas expressões e rosto de Ari que não é mais tão jovial. Queimado do sol, quando o dia foi bom, ele logo chega dizendo que "hoje deu peixe", mas quando não, se lamenta com inúmeras reflexões.

Pescador desde muito cedo, ele não abandona a prática por amor. Todos os dias sai de casa antes mesmo do sol nascer e faz dessa rotina o sentido de vida

Lembra que lá tinha piava, pêra e pitando pra sustentar a família. Junto com sua esposa, teve quatro filhos e cinco netos. Agora, vive rotina mais pacata, ainda que seja bonita a alegria, se o peixe aparecer. Com a linha e seu anzol batendo na correnteza, faz desenho ou poema, quando tem esperança - todo dia, de apanhar uma iguaria no rio. É que qualquer pescado vira jóia. E Aurentino vira garimpeiro, mas de peixe.

Com rosto sofrido do sol e idade, ele diz que o rio já teve mais variedade de peixes, mas não desiste de morar na comunidade, mesmo depois de aposentado

É que aos 79 anos, Aurentino Manoel de Souza, viu muita água correr por ali e confessa que nunca em sua vida houve tanta escassez de peixe.  Efeitos da urbanidade, quem sabe, outrora da poluição. Peixe tem sido a cada dia mais raro em qualquer lugar, mesmo onde sempre houve fartura. A situação, para Aurentino, é mesmo de cortar o coração. "Não tem peixe nem pra boiar", é o que ele reflete.

Fonte: RD News 



Por Olhar Cidade 24/09/2019 10:24:00

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